Botequim Abril 2012

O deus do lixo. O país e outras confissões.
Finalmente, e quando o tempo era já a longitude e aquela outra coisa mais da saudade com rugas, voltámos ao lugar onde os homens se fazem crianças e outros há que crianças sempre foram. É Abril e o triste calendário da agência funerária aqui da tasca diz-nos que a Primavera chegou.
Parece que nem os almanaques dizem algo certo sobre o país encalhado num monte arenoso de más ideias e de rochosas pedras de inactividade política. As estações trocaram-se, mas o tipo sem nome que todos aqui da rua conhecem está o mesmo: negro de pouca água, cheiro neutro de pouco sabão.
Os netos viram-lhe a cara todos os dias. Talvez seja este o seu maior desgosto – também não se pode ter tudo na vida, por vezes nem nome próprio.
A sua profissão sempre foi a hábil e estrumada ideia de ver no lixo as mais funcionais preciosidades que, religiosamente, explora na sua gruta-garagem paleolítica. “O governo”, diz, dá-lhe o resto.
Há tantos anos que todos o não conhecem. Há tantos mais que o lixo conhece o seu deus aqui da rua.
Continua sem nome e com aquela dura propensão de meter a mão na interrogação de cada amontoado de lixo. Talvez estejamos todos s precisar não de quem nos meta mais as mãos, mas daqueles outros que nos dignificam, mesmo quando lixo somos.
Autor/Fonte: Tiago Ribeiro (yuzin.ribeiro@gmail.com)

